Turismo e lazer em Formiga: 22 promessas, 15 meses e poucas respostas (como sempre)
- Gabriela Laudares

- há 1 dia
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O problema estrutural que ninguém quer nomear
Antes de avaliar promessa por promessa, é preciso dizer o que a análise orçamentária já revela: o turismo não tem secretaria própria em Formiga. Ele está subordinado à Secretaria de Administração e Desenvolvimento Econômico até o momento. O próprio plano de governo (item 9) reconheceu isso ao prometer "analisar a viabilidade de criar uma secretaria onde o Turismo seja o foco principal." Quinze meses depois, nada foi feito a respeito.
A promessa sequer entrou em debate público. Ou melhor, entrou na “reforma administrativa” que apenas transfere o cargo de Coordenador de Turismo da Secretaria atual para a Secretaria de Cultura e Turismo! Não há sequer um subsecretário ou um adjunto exclusivo para o setor.
No PPA 2026–2029 (Emenda Modificativa nº 2, aprovada em dezembro de 2025), o turismo aparece diluído em ações genéricas: 2.081 – Manutenção do Crescimento Turístico no Município (FMT), 2.161 – Manutenção do Crescimento Turístico no Município, 2.083 – Manutenção do Convênio com a Associação do Circuito Turístico Grutas e Mar de Minas. São atividades de manutenção, não projetos de expansão. A palavra "manutenção" diz muito: ela sinaliza continuidade do que já existia, não a ruptura prometida na campanha.
O que foi feito — e o que foi apenas anunciado
Circuito Turístico Grutas e Mar de Minas (item 2): Este é o único ponto em que há continuidade verificável. O convênio existia antes deste governo e foi mantido (ação 2.083 do PPA). Nenhum avanço concreto além da renovação do vínculo institucional.
Lago de Furnas (item 6): Aqui, o governo se beneficia de esforços que extrapolam sua competência. O prefeito Coronel Laércio, na qualidade de secretário da ALAGO, participou em novembro de 2025 de homenagem à entidade na Câmara Municipal, onde foram destacados investimentos federais de aproximadamente R$ 2 milhões para obras de navegabilidade e um pacote de R$ 268 milhões do Governo Federal para ações ambientais na região do lago. O problema analítico é evidente: esses recursos são federais e regionais, não ações do município de Formiga. A gestão municipal se apropria politicamente de iniciativas que não dependem dela e ainda tem a capacidade de perder algumas vide a denúncia feita pela Comunidade Viva Furnas, no dia 08 de abril deste ano. Das infraestruturas prometidas — palco, sanitários, bebedouros, iluminação, atrações náuticas, Réveillon no lago — não há registro público de execução.
Praia Popular (item 4 e 5): A revitalização da faixa de areia e a praça de alimentação no Parque Municipal Dr. Leopoldo Correia eram duas das promessas mais concretas e geograficamente localizadas do plano. Quinze meses depois, não há evidência pública de obras iniciadas, licitação publicada ou projeto aprovado. A proposta de estudo de viabilidade para um píer (item 5) — uma obra de maior envergadura — também não gerou qualquer movimentação registrada.
Mercado Municipal (item 22): Uma das promessas mais ambiciosas e mais vagas do plano. Não há terreno definido, projeto arquitetônico, previsão orçamentária específica nem processo licitatório em curso. O PPA não inclui nenhuma ação com essa denominação, o que indica que o compromisso não foi sequer traduzido em política pública para o quadriênio.
Secretaria de Turismo (item 9): Como mencionado, a análise de viabilidade prometida nunca aconteceu. A estrutura administrativa permanece falha como à da gestão anterior. Até a tentativa de reforma é tacanha: apenas um cargo de coordenação, uma menção ao setor no nome da secretaria e zero arcabouço para qualquer avanço.
As promessas vagas que nunca foram métricas
Uma leitura honesta do plano de governo revela que boa parte de seus 22 itens de turismo não possui qualquer critério de verificação. Frases como "fomentar", "apoiar", "promover", "investir em melhorias" e "analisar a viabilidade" são categorias de intenção, não de resultado. Um cientista político diria que essas formulações são funcionalmente irrefutáveis: como provar que o governo não fomentou o ecoturismo (item 8) se não existe meta, prazo, número de trilhas ou volume de visitantes como referência?
Isso é um problema de desenho de política pública, não apenas de execução. Quando não há indicadores, não há accountability. E quando não há accountability, a população fica refém do que o próprio governo decidir divulgar como conquista.
O que o PPA 2026–2029 diz sobre as prioridades reais
O documento aprovado em dezembro de 2025 é um termômetro importante. A ação 1.071 – Modernização e Revitalização do Aeroporto de Formiga aparece como projeto, o que é relevante para turismo regional. Mas ações diretamente vinculadas ao lazer urbano — revitalização de praças, portais de boas-vindas, sinalização turística, centro de atendimento ao turista — ou não aparecem como projetos autônomos, ou estão subsumidas em ações genéricas de manutenção. A promessa de construir o Mercado Municipal (item 22), por exemplo, não encontra nenhuma ação correspondente no PPA por números ou nome.
O contexto regional que agrava a omissão
Formiga está inserida num dos circuitos turísticos mais promissores de Minas Gerais, com Capitólio a 89 km e o Lago de Furnas como ativo compartilhado. O Furnaspark Resort, localizado em Formiga, passou por aporte de R$ 150 milhões e foi assumido pela operadora Trul Hotéis, tornando-se o Ramada by Wyndham Furnas Park, empreendimento que promete gerar 300 empregos diretos e 300 indiretos. Ou seja: o setor privado está investindo em Formiga como destino. A omissão do poder público nesse contexto não é neutra — ela significa perda de sinergia, de atração de visitantes e de geração de renda local.
Balanço: o que foi cumprido, o que foi parcial, o que foi ignorado
De 22 compromissos listados, é possível identificar:
Cumprido ou em andamento verificável: Manutenção do Circuito Turístico (item 2) — por continuidade, não por iniciativa nova. Participação institucional na ALAGO (item 6, parcialmente) — com ressalva de que os recursos anunciados são federais. Feiras em bairros e comunidades rurais (item 17): este item em especial merece uma análise separada haja vista que foi objeto do Projeto de Lei nº 248/2026, de autoria dos Vereadores Osânia Silva e Wolkmar Menezes. Algumas edições rurais aconteceram e ainda acontecerão nas mesmas comunidades por conveniência política, sem qualquer escolha democrática pela população e sem de fato valorizar a cultura local. É mais uma oportunidade para o Prefeito colher louros de patrocinadores privados e angariar apoio legislativo.
Sem evidência de execução: Revitalização da Praia Popular (item 4), estudo do píer (item 5), infraestrutura no Lago de Furnas (item 6), levantamento de potencialidades turísticas (item 1), calendário e guia turístico (item 10), sinalização turística (item 19), centro de atendimento ao turista (item 18), portais de boas-vindas (item 13), melhorias no acesso ao Cristo (item 11), acesso às cachoeiras (item 15), análise da secretaria exclusiva de turismo (item 9), Festival Gastronômico (item 16), projeto de paisagismo em Ponte Vila (item 7), Mercado Municipal (item 22).
Impossível verificar por ausência de métricas: Ecoturismo (item 8), apoio a manifestações folclóricas (item 21), ampliação de parcerias com empreendedores (item 20), campeonatos e corridas (item 14), palestras educativas (item 3), capacitação de monitores turísticos (item 18).
Conclusão: intenção não é política pública
O plano de turismo da gestão Coronel Laércio e Taciana Carvalho foi generoso em aspirações e avaro em instrumentos. Quinze meses de governo não produziram um único documento público que seja — levantamento de potencialidades, estudo de viabilidade, projeto arquitetônico, edital de licitação — que demonstre que qualquer uma das 22 promessas migrou do papel para a realidade administrativa. O que existe no PPA 2026–2029 é, em essência, manutenção do status quo com nova roupagem orçamentária.
Num município com o potencial turístico de Formiga — o Lago de Furnas, o Cristo, as cachoeiras, o patrimônio histórico, o Circuito Grutas e Mar de Minas — a omissão tem custo. Cada temporada que passa sem infraestrutura, sinalização ou promoção ativa é uma janela de oportunidade que se fecha, enquanto cidades vizinhas avançam.
A população formiguense merece saber: o turismo está na pasta de Administração e Desenvolvimento Econômico. Mas no orçamento, nos projetos e na agenda pública desta gestão, ele ainda não encontrou o seu lugar.



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