14 meses de Câmara Municipal: o que os dados do SAPL revelam sobre cada vereador de Formiga
- Gabriela Laudares

- 6 de abr.
- 13 min de leitura
2.496 matérias protocoladas. Dez vereadores. Uma pergunta que o eleitor tem direito de fazer: quem está trabalhando — e como?
A legislatura da Câmara Municipal de Formiga começou em janeiro de 2025. Passados 14 meses, o Sistema de Apoio ao Processo Legislativo — o SAPL — acumulou um registro detalhado de tudo o que cada vereador protocolou: projetos de lei, pedidos de informação, requerimentos, emendas, indicações, moções. Dados públicos, acessíveis a qualquer cidadão.
O Formiga em Foco acessou, organizou e analisou esse acervo completo até 29/03/2026. O resultado é este painel: não uma avaliação subjetiva, mas uma leitura sistemática do que cada mandato produziu — e do que cada tipo de produção significa, de fato, para a cidade.
Porque não é a mesma coisa apresentar 233 indicações ao prefeito e apresentar 30 emendas técnicas a projetos de lei. Não é a mesma coisa protocolar 136 moções elogiosas e requisitar formalmente 85 pedidos de informação ao executivo. Os números estão lá — mas só contam quando você sabe o que eles significam.
Antes dos números: um mapa do que cada instrumento significa
O léxico legislativo municipal não é óbvio para o cidadão comum. Antes de comparar vereadores, é preciso entender o peso real de cada ferramenta que eles têm à disposição.
Projeto de Lei Ordinária (PLO) e Projeto de Lei Complementar (PLC): são as propostas com poder normativo real. Quando aprovados, viram lei. Mas há uma distinção crucial: boa parte dos PLOs aprovados em câmaras municipais usa a fórmula "autoriza o município a...", que cria uma permissão legal sem obrigar o executivo a agir. O impacto real depende da vontade do prefeito.
Pedido de Informação (PIN): instrumento formal de fiscalização. O vereador requere ao executivo — prefeitura, secretarias, autarquias — informações específicas sobre atos, contratos, dados orçamentários. O executivo é obrigado a responder. É uma das ferramentas mais diretas de controle parlamentar disponíveis no nível municipal.
Requerimento (REQ): pode ser usado para solicitar audiências públicas, pareceres jurídicos, informações de plenário. É um instrumento versátil de fiscalização e organização legislativa — mas também pode ser usado para justificar ausências, o que não configura fiscalização.
Emenda (EMEM): modificação a projetos em tramitação. Pode ser aditiva (acrescenta), modificativa (altera) ou supressiva (retira). As emendas ao orçamento (LOA) podem ser impositivas — nesse caso, vinculam obrigatoriamente dotação e o executivo não pode simplesmente ignorá-las.
Indicação (IND): sugestão ao executivo, sem força normativa. O prefeito não é obrigado a acatar. Servem como canal de demandas da base eleitoral, mas não produzem mudanças por si sós. Um volume muito alto de indicações em relação ao total de matérias pode sinalizar um mandato de demandas, não de proposições.
Moção (MOÇ): manifestação do plenário — elogiosa, de repúdio, de solidariedade. Não tem qualquer poder normativo ou fiscalizatório. É, essencialmente, um documento simbólico.
Projeto de Resolução (PRES): altera a estrutura interna e o funcionamento da própria Câmara — regimento, cargos, remuneração de servidores do legislativo. Tem força normativa dentro do âmbito parlamentar.
Fonte de todos os dados: SAPL — Sistema de Apoio ao Processo Legislativo da Câmara Municipal de Formiga/MG. Período analisado: 01/01/2025 a 29/03/2026.
A produção total: quem protocolou o quê
Ao todo, os dez vereadores somaram 2.496 matérias no período. O número parece alto — e é, em parte, porque inclui todo tipo de instrumento, do mais simples ao mais complexo.
Vereador | Total | Proj. Lei (PLO+PLC) | PIN | REQ | Emendas | Indicações | Moções |
Joice Alvarenga | 461 | 25 | 85 | 38 | 13 | 175 | 114 |
Flávio Martins | 382 | 22 | 0 | 4 | 2 | 37 | 111 |
Thiago Pinheiro | 362 | 19 | 47 | 29 | 30 | 70 | 133 |
Jaci da Rua Nova | 345 | 13 | 0 | 4 | 2 | 233 | 44 |
Luciano do Gás | 342 | 25 | 7 | 7 | 9 | 130 | 142 |
Daniel Rodrigues | 161 | 11 | 6 | 3 | 4 | 108 | 23 |
Piruca | 160 | 4 | 2 | 1 | 3 | 11 | 136 |
Osânia Silva | 117 | 20 | 1 | 5 | 1 | 18 | 60 |
Wolkmar Menezes | 104 | 6 | 0 | 1 | 2 | 78 | 17 |
Cid Corrêa | 62 | 21 | 4 | 8 | 2 | 1 | 13 |
O volume total, porém, distorce mais do que revela. Joice Alvarenga lidera com 461 matérias — mas 85 delas são pedidos formais de informação ao executivo, e outras 38 são requerimentos substantivos. Flávio Martins aparece em segundo com 382, mas 142 delas são ofícios e 111 são moções — grande parte fruto de sua posição como presidente da Câmara em 2025, que gera produção burocrática independente da atuação política do mandato.
Na ponta oposta, Cid Corrêa protocolou apenas 62 matérias — o menor total absoluto. Mas 21 delas são projetos de lei, e o vereador presidiu a Comissão de Finanças nos dois anos da análise, além de ter ocupado a vice-presidência da Câmara em 2025. A intensidade do mandato não se mede só pelo volume.
Fiscalização: quem cobra, quem silencia
O pedido de informação formal ao executivo é o instrumento mais direto de controle parlamentar disponível ao vereador. Ele obriga o poder público a responder. Não é sugestão — é requisição com respaldo regimental. Quem o usa, fiscaliza. Quem não usa, não fiscaliza — pelo menos não formalmente.
Joice Alvarenga protocolou 85 pedidos de informação em 14 meses. Flávio Martins, Jaci da Rua Nova e Wolkmar Menezes: zero.
A discrepância é grande demais para ser atribuída a estilo de mandato. Significa caminhos distintos de atuação — e, em alguns casos, de omissão fiscalizatória.
Joice Alvarenga — fiscalização sistemática e temática definida
Com 85 PIns e 38 requerimentos substantivos, Joice Alvarenga construiu um histórico de fiscalização que cobre saúde (UPA, UBSs, medicamentos em falta, transporte de pacientes), orçamento municipal (emendas impositivas, fechamento do exercício, pagamento de servidores), habitação (programa de aluguel social) e violência — incluindo um PIN sobre o caso de violência policial ocorrido em setembro de 2025. É o mandato com maior capilaridade temática na fiscalização executiva.
Thiago Pinheiro — técnica e amplitude
Com 47 PIns e 29 requerimentos, Thiago Pinheiro tem o segundo maior volume de fiscalização. Seus pedidos cobrem saneamento (SAAE, tarifas, rede de esgoto), segurança pública, urbanismo, questões jurídicas relativas a projetos em tramitação e monitoramento de contratos. Como presidente da CCJ nos dois anos, sua atuação de fiscalização se soma ao perfil técnico-legislativo do mandato.
Cid Corrêa — fiscalização focada e cirúrgica
Com apenas 4 PIns, Cid Corrêa parece pouco ativo nesse instrumento — mas seus pedidos de informação tocam em pontos sensíveis: o transporte de pacientes restrito ao período diurno pela Secretaria de Saúde, a aplicação das emendas impositivas e o funcionamento dos postos de saúde. O presidente da Comissão de Finanças também usou requerimentos para cobrar pareceres técnicos e contábeis — um tipo de fiscalização mais institucional que individual.
Luciano do Gás, Daniel Rodrigues e Osânia Silva — fiscalização tímida
Luciano do Gás, presidente da Comissão de Serviços Públicos Municipais, protocolou 7 PIns — número modesto para quem preside a comissão que deveria monitorar os serviços prestados à população. Daniel Rodrigues apresentou 6 PIns, com foco em meio ambiente e saúde. Osânia Silva, membro da Comissão de Finanças, protocolou apenas 1 PIN formal em 14 meses.
Flávio, Jaci e Wolkmar — zero pedidos de informação
Nenhum pedido de informação formal protocolado. Flávio Martins ocupou a presidência da Câmara em 2025, o que gera demandas administrativas — mas não justifica, por si só, a ausência total de fiscalização via PIN. Jaci da Rua Nova, com 233 indicações ao executivo, claramente prefere o canal das solicitações informais. Wolkmar Menezes, com 92 matérias protocoladas em 2025 — 69 delas indicações — repete o padrão.
Proposições: o que cada um propôs — e o que isso vale
Projetos de lei têm força normativa. Contudo, há projetos e projetos. Um PLO que "institui o Dia Municipal da Corrida da Mulher" é lei — mas não muda a vida da população num geral de forma concreta. Um PLC que altera a estrutura de carreira do funcionalismo municipal tem impacto orçamentário real. A quantidade de projetos importa menos do que a densidade das propostas.
Joice Alvarenga — 25 projetos com agenda consistente
O portfólio de PLOs de Joice Alvarenga é o mais diversificado e temático da legislatura: Política Municipal de Atenção à Síndrome da Fadiga Crônica, proteção às abelhas nativas, programa de combate ao suicídio de crianças e adolescentes, práticas antirracistas, "Orçamento Mulher", programa para mães solo, leito separado para mães de natimorto, notificação de casos de mordedura animal. É uma agenda de direitos e políticas públicas com coerência temática clara — saúde, gênero, meio ambiente, segurança.
A maioria depende do executivo para implementação, mas a consistência temática e a densidade técnica das propostas colocam esse portfólio acima da média da Câmara.
Luciano do Gás — 25 projetos com foco em serviços e habitação
Emenda para inclusão de microchip em cães, projetos de habitação, serviços urbanos, PLCs sobre loteamento. Luciano do Gás tem volume expressivo e coerência com sua posição na Comissão de Serviços Públicos — mas o alto número de indicações (130) e moções (142) mostra que parte considerável do mandato opera no registro das demandas, não das proposições.
Flávio Martins e Cid Corrêa — projetos com impacto institucional
Flávio Martins, como presidente da Câmara em 2025, apresentou 6 projetos de resolução que alteraram o funcionamento interno da Casa — salário, benefícios e contratações. Cid Corrêa apresentou os mesmos 6 PRES como vice-presidente, além de PLOs sobre alimentação escolar, Formiga Tênis Clube e funcionalismo do legislativo.
Thiago Pinheiro — emendador, mais do que propositor
Com 19 PLOs/PLCs e 30 emendas, Thiago Pinheiro tem um perfil diferente: ele intervém mais em projetos alheios do que propõe textos próprios. Só ao Código de Posturas (PLC 008/2025), apresentou oito emendas. É a atuação típica de um presidente de CCJ que funciona como revisor técnico do processo legislativo — o que tem valor real, mesmo que menor visibilidade pública.
Destaque: o PLC de parcelamento do solo para chacreamento (PLC Thiago/2025) é uma das propostas com maior impacto urbanístico potencial da legislatura.
Wolkmar Menezes — 6 projetos em 14 meses
Wolkmar Menezes apresentou 6 PLOs/PLCs no período. Entre eles, o projeto de proibição de taxa de religação de água pelo SAAE (que impacta diretamente famílias em situação de inadimplência), autorização para manutenção de estradas rurais terciárias e o Festival Gastronômico Rural. Volume modesto, mas com pelo menos um projeto de impacto concreto para a população mais vulnerável.
Piruca — 4 projetos, 136 moções
A proporção é o dado mais revelador. Piruca protocolou 4 projetos de lei e 136 moções. Isso significa que, de cada 40 matérias, 34 são manifestações simbólicas sem poder normativo algum. As moções de Piruca incluem elogios ao prefeito Laércio Reis (várias), à vice-prefeita Taciana Carvalho, ao diretor do SAAE e a prefeitos de municípios vizinhos. O mandato é, em larga medida, um registro de aprovação da gestão municipal — não de fiscalização ou proposição independente.
Jaci da Rua Nova — 233 indicações e a presidência da Câmara
Jaci da Rua Nova tem o maior volume de indicações da legislatura: 233. São pedidos ao executivo — reforma de cerca de fazenda, asfaltamento de rua, iluminação pública, limpeza de escola. Demandas legítimas da base eleitoral — mas que dependem inteiramente da boa vontade do prefeito para se concretizar. Como presidente da Câmara em 2026, Jaci passou a gerar também portarias e ofícios institucionais. Seu volume de proposições próprias (13 PLOs/PLCs) é o menor entre os que não são presidentes de comissão.
Orçamento: quem vincula, quem depende do prefeito
Todo vereador apresentou ao menos uma emenda impositiva ao Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA 2026 — PL 172/2025). Emendas impositivas vinculam dotação: o executivo é obrigado a executá-las. É o único instrumento que retira do prefeito o poder de simplesmente ignorar a vontade do vereador.
Entretanto, além das emendas à LOA, a questão do orçamento percorre todos os projetos de lei: quais criam obrigações que vinculam recursos públicos, e quais apenas "autorizam" o executivo a agir — deixando a decisão de implementar nas mãos do prefeito?
Vereador | Em. impositiva LOA | Autonomia legislativa | Observação |
Joice Alvarenga | Sim | Alta | Projetos com impacto real em saúde e direitos |
Thiago Pinheiro | Sim | Alta | Emendas técnicas + PLC urbanístico |
Cid Corrêa | Sim | Alta | PLCs funcionais + PRES com impacto direto |
Luciano do Gás | Sim | Média-alta | PLCs + emendas a projetos de terceiros |
Osânia Silva | Sim | Média | PLCs + PRES como primeira-secretária |
Flávio Martins | Sim | Média | PRES e gestão institucional como presidente |
Daniel Rodrigues | Sim | Baixa-média | 108 indicações reduzem autonomia legislativa |
Jaci da Rua Nova | Sim | Baixa | 233 indicações — altíssima dependência do exec. |
Wolkmar Menezes | Sim | Baixa | 78 indicações — perfil de mandato demandista |
Piruca | Sim | Baixa | 136 moções — mandato predominantemente simbólico |
A maioria dos projetos aprovados em câmaras municipais depende do executivo para implementação — isso é estrutural, não exclusividade de Formiga. O que diferencia os mandatos é o grau em que os vereadores conseguem criar obrigações legais, vincular recursos ou exercer controle independente sobre o que o prefeito faz com o dinheiro público.
Comissões: onde o poder real é exercido
As comissões permanentes da Câmara de Formiga são três: Constituição, Justiça e Redação (CCJ); Finanças, Orçamento e Tomada de Contas; e Serviços Públicos Municipais. É nas comissões que projetos são analisados antes de ir a plenário — e onde os relatores têm poder real de influenciar o texto final de uma proposta.
Vereador | 2025 | 2026 |
Cid | Presidente da C. de Finanças Presidente suplente da CCJ Vice-Presidente da Câmara | Presidente da C. de Finanças Presidente suplente da CCJ Vice-Presidente da Câmara |
Daniel | Membro da C. de Serv. Públicos Relator suplente da C. de Finanças | Membro da C. de Serv. Públicos Relator suplente da C. de Finanças |
Flávio | Presidente da Câmara | Membro da CCJ Presidente suplente da C. de Serv. Públicos |
Jaci | Membro da CCJ Presidente suplente da C. de Serv. Públicos | Presidente da Câmara |
Joice | Relatora da C. de Finanças Relatora suplente da C. de Serv. Públicos | Relatora da C. de Finanças Relatora suplente da C. de Serv. Públicos |
Luciano | Presidente da C. de Serviços Públicos Membro suplente da C. de Finanças | Presidente da C. de Serviços Públicos Membro suplente da C. de Finanças |
Osânia | Membro da C. de Finanças Membro suplente da CCJ | Membro da C. de Finanças Membro suplente da CCJ |
Piruca | Relator da CCJ Membro suplente da C. de Serv. Públicos | Relator da CCJ Membro suplente da C. de Serv. Públicos |
Thiago | Presidente da CCJ Presidente suplente da C. de Finanças | Presidente da CCJ Presidente suplente da C. de Finanças |
Wolkmar | Relator da C. de Serviços Públicos Relator suplente da CCJ | Relator da C. de Serviços Públicos Relator suplente da CCJ |
Thiago Pinheiro é o vereador que presidiu por dois anos seguidos a CCJ, a mais estratégica da Câmara, responsável por analisar a constitucionalidade e legalidade de todos os projetos. Essa continuidade lhe confere uma posição singular de influência sobre o processo legislativo.
Cid Corrêa presidiu a Comissão de Finanças nos dois anos — posição que explica, em parte, o foco do seu mandato em questões orçamentárias e funcionais. Luciano do Gás presidiu Serviços Públicos nos dois anos.
Flávio Martins, como presidente da Câmara em 2025, não integrou comissões permanentes — o que limita a comparação do seu perfil legislativo naquele ano. Jaci da Rua Nova assume a presidência em 2026, com o mesmo efeito. São posições de prestígio, mas que retiram o vereador do circuito técnico das comissões.
Audiências públicas: participação popular ou protocolo?
A audiência pública é o mecanismo mais direto de participação popular no processo legislativo municipal. Projetos de impacto significativo — o Código de Posturas, o orçamento anual, políticas de saúde — deveriam, idealmente, passar por esse crivo antes de serem votados.
A análise das matérias identificou 18 registros de audiências públicas requeridas, convocadas ou mencionadas nas matérias dos vereadores. O número é modesto para uma legislatura de 14 meses — e a distribuição é desigual.
Joice Alvarenga lidera com 7 registros — pedidos de audiência sobre o Código de Posturas, condições das mulheres, habitação e outros temas. Thiago Pinheiro aparece com 4, em parte como presidente da CCJ, que conduziu audiências sobre projetos estruturantes. Cid Corrêa requereu 2 audiências públicas sobre temas de saúde e legislação municipal. Luciano do Gás apresentou 1 requerimento de audiência sobre distribuição de água.
Piruca, Flávio (em sua atuação como vereador, não como presidente administrativo), Jaci e Wolkmar não requereram nenhuma audiência pública no período.
Os perfis: uma leitura integrada
Joice Alvarenga — a fiscalizadora
O mandato mais ativo em fiscalização da legislatura, com agenda temática definida e projetos de densidade acima da média. A combinação de 85 PIns, 38 REQs, 25 PLOs e 7 audiências públicas é a mais robusta da Câmara em termos de instrumento utilizado. Ponto de atenção: o alto volume de indicações (175) mostra que o mandato também opera na lógica demandista — porém não como característica predominante.
Thiago Pinheiro — o técnico-legislativo
Presidente da CCJ por dois anos seguidos, com 47 PIns, 30 emendas e atuação de revisão técnica sobre projetos estruturantes. É o mandato mais orientado ao processo legislativo em si. Menos visibilidade popular, mais influência interna. Os 70 PLOs/PLC coautorados com frequência revelam um vereador que prefere aprimorar propostas alheias a assinar projetos próprios.
Cid Corrêa — o orçamentista institucional
Com o menor total de matérias (62), Cid Corrêa tem um mandato concentrado: PLCs de funcionalismo, 6 projetos de resolução estruturando a Câmara, presidência de Finanças nos dois anos e a vice-presidência da Casa em 2025. É o vereador que mais opera dentro das estruturas institucionais — com menos quantidade e mais densidade.
Luciano do Gás — presidente com contradições
Presidente da Comissão de Serviços Públicos nos dois anos, mas com apenas 7 PIns. Um mandato que equilibra proposições (25 projetos), moções (142) e indicações (130) — e que parece mais voltado à construção de visibilidade política do que à fiscalização técnica da área que preside.
Flávio Martins — o presidente administrativo
Em 2025, a presidência da Câmara explica boa parte da produção: 142 ofícios, 52 portarias, 97 moções. São, em sua maioria, atos de gestão institucional, não de fiscalização ou proposição política. Em 2026, como vereador comum, o volume cai drasticamente: 24 matérias. A avaliação do mandato precisa separar o que é atuação política do que é função administrativa de presidência.
Osânia Silva — presença institucional, fiscalização discreta
Com 6 PRESs, 4 PLCs e participação ativa nas comissões de Finanças e CCJ (como suplente), Osânia Silva tem um mandato de presença institucional. Contudo, o único PIN protocolado em 14 meses é um dado que contrasta com a posição de membro da Comissão de Finanças — exatamente o colegiado que deveria monitorar a execução orçamentária.
Daniel Rodrigues — o demandista
108 indicações em 14 meses. O instrumento de menor poder normativo é o dominante do mandato de Daniel Rodrigues. Os 11 PLOs apresentados cobrem saúde, meio ambiente e animais, com alguns projetos de relevância real. O perfil geral é de um mandato voltado à canalização de demandas da base — não à fiscalização ou proposição legislativa independente.
Jaci da Rua Nova — o indicador-mor
233 indicações. O número equivale a quase uma indicação por dia útil em 14 meses. É o mandato mais demandista da legislatura — e o que tem menor autonomia em relação ao executivo, já que toda a força do trabalho depende da disposição do prefeito de atender às solicitações. A presidência da Câmara em 2026 muda a dinâmica administrativa, mas não apaga a marca do primeiro ano.
Wolkmar Menezes — indicações e visibilidade
78 indicações, 17 moções, 6 PLOs em 14 meses. O perfil já havia sido analisado neste veículo: um mandato de alta frequência burocrática com baixo impacto normativo direto. O projeto de proibição de taxa de religação de água é um dos poucos com impacto real e identificável para a população mais vulnerável.
Piruca — o eloquente silencioso
136 moções. 4 projetos de lei. A conta é direta: 85% da produção legislativa de Piruca é simbólica. As moções incluem múltiplos elogios ao prefeito Laércio Reis e à vice-prefeita Taciana Carvalho. Nenhuma audiência pública requerida, praticamente nenhuma fiscalização formal ao executivo. É o mandato que mais se aproxima do perfil de apoio incondicional à gestão municipal — no registro legislativo, não como declaração política.
Conclusão: os dados não julgam — mas revelam
Não há um padrão único de bom mandato. Há vereadores que optam por proposições técnicas, outros por fiscalização sistemática, outros por gestão institucional. Todas são formas legítimas de atuação parlamentar.
O que os dados revelam é outra coisa: a proporção entre os instrumentos diz muito sobre as escolhas de cada mandato. Um vereador que usa 85% de suas matérias em moções e indicações — sem nenhum PIN formal, sem audiências públicas requeridas — está exercendo um tipo de mandato que tem pouco impacto normativo direto sobre a vida dos formiguenses.
A democracia municipal funciona melhor quando os eleitores sabem exatamente o que seus representantes estão fazendo na Câmara. Não o que eles dizem fazer — o que o registro público documenta que fizeram.
Os dados estão disponíveis no SAPL da Câmara Municipal de Formiga. Todo cidadão pode acessá-los. Este texto os organizou. O julgamento final cabe a você.



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