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Perfil: Wolkmar Menezes

  • 9 de mar.
  • 7 min de leitura

Eleito em 2024 com 827 votos pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).


Wolkmar Geraldo Menezes começou este mandato com uma narrativa bem construída: o agricultor que sai do campo para levar as demandas rurais ao Legislativo. Décadas nas roças de Formiga, ensino fundamental completo, raízes fincadas na terra. A história é tocante — um homem que finalmente daria voz às comunidades rurais negligenciadas pela política municipal.


A realidade dos números é bem diferente.


Com 827 votos na eleição de 2024, Wolkmar conquistou sua primeira cadeira efetiva na Câmara Municipal após quatro legislaturas como suplente (2008, 2012, 2016 e 2020). Essa trajetória de 16 anos na condição de reserva não é um detalhe: revela um vereador que nunca conseguiu construir uma base eleitoral significativa, apesar das sucessivas candidaturas. A progressão foi lenta e irregular: 419 votos em 2008 (PV) → 457 em 2016 (PSC) → 498 em 2012 (PSC) → 689 em 2020 (PSB) → 827 em 2024 (PDT). Tecnicamente, houve crescimento. Politicamente, porém, cada um desses números diz a mesma coisa: invisibilidade.


Agora, como vereador efetivo, Wolkmar tinha a oportunidade de sair dessa sombra. De transformar 16 anos de aprendizado no Legislativo em ação concreta. Teve? Sim. Aproveitou? Segundo os dados do SAPL, não exatamente.


Os números falam: 92 matérias em um ano, 69 delas indicações


Consultando o Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL) da Câmara Municipal, o quadro fica claro. Em um ano de mandato, Wolkmar Menezes apresentou 92 matérias legislativas. Parece muito. É?


Não. Aqui está o problema: 69 delas são indicações (75% do total), 16 são moções elogiosas (17%), apenas 4 são projetos de lei (4%), 2 são emendas orçamentárias e 1 é requerimento.

Para quem não está familiarizado com jargão legislativo, a hierarquia é clara. Indicações são o instrumento mais fraco do vereador: são pedidos formais ao Executivo, mas que não vinculam ninguém a nada. São protocolo. Documentação. Não é legislação.


Projetos de Lei são o instrumento de poder real. São o que muda as cidades. Wolkmar apresentou apenas 4 em um ano — e nem todos como autor único. Quando a história oficial diz que o vereador "apresentou requerimentos para manutenção de estradas, pontes, mata-burros", o que realmente significa é: Wolkmar pediu. Formalmente. Por escrito. E depois esperou o Executivo atender.


A especialidade: indicações sobre infraestrutura rural (que ninguém confirma se foram atendidas)


Das 69 indicações, as temáticas são previsíveis e revelam um padrão problemático:


  • Infraestrutura rural (mata-burros, pontes, estradas): 16 indicações (23%)

  • Transporte/Vias urbanas: 13 indicações (19%)

  • Manutenção geral (limpeza, poda, etc): 12 indicações (17%)

  • Saneamento/Água: 8 indicações (12%)

  • Iluminação pública: 6 indicações (9%)

  • Saúde e Educação: 4 indicações cada (6%)


Lê-se assim: um vereador que gasta seu tempo pedindo que outras secretarias façam seu trabalho. Indicação nº 442, por exemplo, pede que "a Prefeitura, através da Secretaria competente, providencie a roçagem e limpeza do Rio Mata Cavalo." Indicação nº 482 solicita que "o poder executivo providencie a manutenção de duas máquinas quebradas estacionadas no pátio da Secretaria de Obras."


São demandas legítimas? Sim. O povo merece infraestrutura. Mas há uma diferença fundamental entre pedir que algo seja feito e garantir que será feito. Uma indicação desaparece nos arquivos da Prefeitura. Um projeto de lei muda a estrutura da cidade.


Moções elogiosas: quando o vereador não legisla, homenageia


As 16 moções que Wolkmar apresentou revelam outra estratégia: a da visibilidade política. Moções elogiosas custam zero politicamente e geram documentação que prova "atuação". Wolkmar enviou moções para homenagear participantes de um seminário de fibromialgia, para agradecer pessoas que organizaram um festival gastronômico, para elogiar um aposentado que deixou seu comércio.


Essas moções existem por uma razão: reconhecer contribuições reais à comunidade. O problema surge quando elas compõem a maioria da atividade legislativa de um vereador. Quando moções ocupam 17% de seu tempo legislativo, em vez de projetos de lei (4%), fica claro que há desproporção.


Particularmente interessante é a moção enviada ao Secretário Marco Antônio da Silveira, onde Wolkmar se reconhece implicitamente: "Após minha solicitação por meio de um pedido de providência, prontamente encaminhou uma equipe para executar a benfeitoria." Ou seja: o Vereador pediu (indicação), o secretário fez, e Wolkmar mandou uma moção elogiosa. Três passos para um trabalho que deveria ter uma via direta.


Os quatro projetos de lei: a verdadeira medida do poder legislativo


Se indicações e moções são performance, projetos de lei são substância. Wolkmar apresentou 4:


  1. PLC nº 6/2025 - Estabelece normas para loteamentos (co-autoria compartilhada com 5 outros vereadores)

  2. PLO nº 98/2025 - Obrigatoriedade de microchip em cães (co-autoria: Daniel Rodrigues, Jaci da Rua Nova, Luciano do Gás)

  3. PLO nº 58/2025 - Autoriza manutenção de estradas rurais terciárias (co-autoria: Osânia Silva)

  4. PLO nº 40/2025 - Proibição de cobrança de taxa de religação de água (co-autoria: Flávio Martins, Daniel Rodrigues, Jaci da Rua Nova)


Observe: nenhum projeto é de autoria individual do Wolkmar. Todos compartilham autoria. Isso não é necessariamente ruim — colegisladores são comuns — mas quando combinado com a predominância de indicações, mostra um vereador que não lidera a pauta legislativa de Formiga, mas segue a agenda dos colegas.


O projeto sobre internet nos postos rurais, que sua biografia promete, não aparece nos registros do SAPL como projeto de lei. Aparece apenas como indicação nº 56 de 2025: "Que a Prefeitura, através da Secretaria competente, providencie a instalação de internet nos postos de saúde da zona rural." Ou seja: solicitado, não legislado.


A trajetória que não muda: quatro partidos em 16 anos


Wolkmar trocou de legenda quatro vezes em 16 anos: PV (2008) → PSC (2012) → PSC (2016) → PSB (2020) → PDT (2024). Essa rotatividade é sintomática. Ou ele perseguia legendas mais viáveis eleitoralmente — o que aponta falta de convicções políticas definidas — ou era descartável para seus partidos anteriores.


Um vereador com convicção política clara, com agenda consistente, não muda de partido a cada legislatura. A narrativa do agricultor com raízes fincadas na terra não se sustenta quando as raízes partidárias são tão rasas.


O padrão emergente: indicação, depois moção


O primeiro ano de Wolkmar revela um padrão que se repete: ele apresenta uma indicação solicitando que algo seja feito (mata-burro consertado, rio limpo, lâmpada trocada). Se o Executivo atende (à sua própria conta, via seus próprios secretários), Wolkmar volta meses depois com uma moção elogiosa reconhecendo o trabalho — como se fosse resultado de sua ação legislativa.


É uma estratégia inteligente de visibilidade, mas enganosa. Cria a ilusão de produtividade sem criar de fato nenhuma mudança institucional.


O que falta confirmar: resultados concretos


Dos 69 requerimentos sobre infraestrutura rural, não há informação pública sobre quantos foram efetivamente atendidos. A zona rural continua com estradas esburacadas? Ainda não tem internet nos postos de saúde? Esses dados não aparecem nos registros do SAPL. Aparecem apenas as solicitações.


Essa é a verdadeira marca do mandato até agora: abundância de documentação, escassez de resultados confirmados.


A presidência que ninguém sabe que existe


Wolkmar “participa de comissões internas da Câmara, incluindo a presidência de uma comissão especial em 2025." O SAPL não especifica qual é essa comissão. Qual seu tema? Quais seus resultados? Não consta. Outra presença sem substância.


A verdadeira força: a fiscalização que gera resultado (mas que não virou lei)


Após denúncias sobre o estado precário das ambulâncias de Formiga, Wolkmar realizou fiscalização in loco e documentou as más condições dos veículos. Baseado nessas evidências, articulou junto ao deputado federal Mário Heringer a destinação de recursos federais. Resultado: uma ambulância nova para Formiga. Além disso, viabilizou uma emenda parlamentar de R$ 100 mil para reforma da UPA, com foco especial na sala infantil.


Igualmente, liderou uma comitiva que se reuniu com o superintendente regional do DNIT para reivindicar melhorias na BR-354, apresentando dados sobre acidentes no trecho entre Formiga e Perdões. Ação de fiscalização que transcendeu o município.


Esses resultados são reais. Merecem ser registrados.


O problema é que eles não foram consolidados legislativamente. A ambulância nova não veio de um projeto de lei que Wolkmar apresentou regulamentando padrões de qualidade para transporte de pacientes. A emenda para a UPA não resultou de uma lei que Wolkmar criou para estruturar fiscalização permanente de equipamentos de saúde. A articulação com o DNIT não gerou uma lei municipal estabelecendo que a Câmara fará monitoramento anual de acidentes na BR-354, por exemplo.


O que faltou: transformar a fiscalização em instituição


Aqui reside a crítica mais precisa sobre o mandato de Wolkmar: ele fez o que faz um bom vereador (fiscalizar, denunciar, articular), mas não fez o que faz um grande vereador (criar mecanismos legislativos que tornem essas ações permanentes e obrigatórias).


Onde está o Projeto de Lei instituindo a Comissão Permanente de Fiscalização de Serviços de Saúde que Wolkmar deveria ter apresentado após constatar a situação das ambulâncias? Onde está a Lei de Padrões Mínimos para Transporte de Pacientes que deveria ter sido sua resposta legislativa àquilo que fiscalizou? Onde está a Lei instituindo Auditoria Pública da Segurança Viária que deveria monitorar acidentes na BR-354?


Nada disso existe. Há, em seu lugar, 69 indicações pedindo que outros façam o que deveria estar blindado por lei.


A diferença é crítica: indicações são gastos de combustível político. Leis são infraestrutura política. Uma é conjuntural; a outra é estrutural.


Wolkmar descobriu problemas reais. Sua capacidade de fiscalização é comprovada. O que não desenvolveu foi a capacidade de transformar descobertas em mudanças institucionais. Continua dependendo da boa vontade de deputados federais para conseguir ambulâncias. Continua precisando articular encontros com órgãos federais para melhorar rodovias. Essas coisas não deveriam depender dele.


Deveriam estar escritas em lei.


Perspectiva: os próximos três anos


Se o primeiro ano é indicador confiável — e historicamente é — Wolkmar Menezes seguirá a trajetória que o caracteriza. Mas agora com uma nuance: ele tem capacidade de fiscalizar, articular e conseguir resultados. O que lhe falta é transformar esses resultados em lei.


Sua descoberta sobre as ambulâncias precárias mostrou que ele consegue identificar problemas. Sua articulação com o DNIT mostrou que consegue dialogar com poder público em outro nível. Mas sua ausência de projetos de lei que consolidem essas descobertas mostra que não desenvolveu a próxima etapa: a de traduzir poder fiscalizador em poder legislativo.


A Formiga rural continua esperando — não apenas por resultados de indicações que desaparecem, mas por um vereador que transforme suas constatações em leis que durem além de seu mandato.


Wolkmar conquistou a cadeira efetiva e demonstrou capacidade de fiscalização. O que falta construir é relevância legislativa.

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