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Esporte em Formiga: um plano “de vitrine” com orçamento de “manutenção”

  • Foto do escritor: Gabriela Laudares
    Gabriela Laudares
  • 11 de fev.
  • 5 min de leitura

Um ano após o início do mandato (2025), o bloco de propostas de Esporte do prefeito Coronel Laércio e da vice Taciana segue a cartilha clássica do discurso: “qualidade de vida, infância, infraestrutura, modalidades novas, eventos, parcerias, inclusão e calendário anual”. O problema é que, quando a gente desce do texto para a LOA 2026, aparece um desenho orçamentário bem mais modesto — e, em vários pontos, incompatível com a ambição do plano.


O que a LOA 2026 realmente coloca em campo


Na função 27 (Desporto e Lazer), a LOA 2026 projeta R$ 1.689.740,62 para o setor (somando administração + desporto comunitário + operações especiais/encargos).


Dentro disso, o “miolo” do esporte (programa Esporte – Integração Saudável) explicita algumas chaves:

  • Obras/infraestrutura esportiva (construção/ampliação/reforma de quadras, estádios, ginásio etc.): R$ 100.000,00

  • Equipamentos para quadras/campos: R$ 11.500,00

  • Bolsa Atleta (concessão de bolsas a atletas): R$ 15.000,00

  • Manutenção de quadras e campos: R$ 186.500,00

  • Manutenção e apoio às atividades esportivas: R$ 183.153,53

  • Administração esportiva (manutenção dos serviços administrativos esportivos): R$ 483.153,91


E há ainda um bloco relevante de operações especiais / repasses (muito por emendas impositivas), incluindo apoios nominais a entidades e clubes (ex.: Tatame do Bem, Beira Rio, Grêmio, Guarani etc.).


A LOA mostra um esporte mais “contábil” (administração + repasses) e menos “programático” (projetos estruturados com escala, equipe, metas e presença territorial).


Plano de governo vs. orçamento: onde a conta não fech


(a) “Melhorar e expandir infraestrutura” (promessa 2, 6, 10, 14)

A LOA reserva R$ 100 mil para obras de quadras/estádios/ginásio e similares. Isso é, na prática, dinheiro de intervenção pequena (piso, pintura, reparo pontual), não de “expansão” ou de transformar CEMAP/CSU em “centros de treinamento”. Inclusive o próprio Centro Social foi destinado para receber lixo ao invés de ter seu objetivo inicial revivido.


Depois de um ano, a mensagem para 2026 não é “vamos virar referência regional”; é “vamos manter funcionando e fazer ajustes”.


(b) “Esportes menos populares” (promessa 3) + “quadras pós-turno escolar” (7)

Para oferecer vôlei, basquete, tênis, escalada, xadrez, badminton etc. com regularidade, o gargalo não é só material: é professor, monitor, transporte, seguro, gestão de agenda. A LOA tem R$ 11,5 mil para equipamentos de quadras/campos. Isso não sustenta um pacote de modalidades novas com capilaridade.


(c) “Virada esportiva” + “Projetos Verão e Inverno” + “Ruas de lazer” (4, 5, 13, 18)

Eventos anuais/mensais exigem produção, som, logística, arbitragem, comunicação e estrutura. O orçamento aparece diluído em manutenção e apoio às atividades (R$ 183,1 mil) e em rubricas de repasses/emendas.


Sem uma ação orçamentária clara para “virada esportiva/ruas de lazer”, fica com cara de: ou não sai, ou sai pontual, dependente de “parcerias” e voluntariado.


(d) “Paradesporto em parceria com a ASADEF” (9)

A ideia é boa — mas na LOA o que aparece com nitidez é apoio por emendas/repasse (lógica de subvenção) e não a estruturação de um programa municipal contínuo. Essa mesma lógica aparece no PPA (lista de ações/apoios vinculados a emenda à LOM), reforçando o perfil de “apoio a entidades” mais do que “política pública esportiva universal”.


(e) “Bolsa Atleta Municipal” (16)

Aqui a LOA é cristalina: R$ 15 mil. Isso pode funcionar como bolsa simbólica (poucos atletas, valores baixos, curto alcance), mas não como política municipal robusta.


O “tamanho” do esporte no orçamento: participação e gasto por habitante


Pelos números da própria LOA, Desporto e Lazer (R$ 1,689 mi) representa algo em torno de 0,38% do orçamento municipal de Formiga para 2026 (na escala do orçamento total).


E quando a gente traz população estimada (IBGE 2025):

  • Formiga: 70.897 habitantes → cerca de R$ 23,8 por habitante/ano para esporte (ordem de grandeza)


Isso não é “erro” por si só, é escolha política: esporte fica pequeno na planilha e grande no discurso.


Comparação com cidade vizinha: Lagoa da Prata


Para não cair em achismo, pego um vizinho com LOA 2026 acessível: Lagoa da Prata.

  • Lagoa da Prata: R$ 3.434.000,00 em Desporto e Lazer (orçamento total R$ 264.275.800,00).

  • A própria peça detalha Bolsa Atleta de R$ 220.000,00 e Auxílio Esportivo de R$ 200.000,00.

  • População estimada 2025: 53.927.


O que isso sugere (comparação direta):

  • Lagoa da Prata coloca mais dinheiro absoluto e mais densidade por habitante no esporte, e principalmente programa o gasto (bolsa/auxílios com valores que permitem escala).

  • Em Formiga, a Bolsa Atleta (R$ 15 mil) é quase decorativa diante do que se anuncia como “Formiga no esporte regional e nacional”.


Diagnóstico após 1 ano: o padrão “promete-se política pública; entrega-se agenda e repasse”


Depois de um ano de mandato, a LOA 2026 revela um caminho provável:

  1. Manter quadras/campos minimamente de pé (manutenção básica)

  2. Administrar a máquina (estrutura administrativa relevante)

  3. Financiar entidades (muitas com nome e sobrenome via emendas)

  4. E deixar as “grandes ideias” (virada, centros por bairro, reativação de torneios, calendário ambicioso) dependendo de parcerias — ou de uma peça orçamentária futura que ainda não apareceu.


Em termos de gestão pública: isso é a diferença entre política pública (com metas, cobertura territorial, indicadores, equipe, custo por aluno/atleta) e programação de eventos + apoio pontual.


Perguntas que a Prefeitura deixa em aberto


  1. Quantos núcleos/bairros terão “centros de iniciação” de verdade em 2026 — e com quantos profissionais?

  2. “Virada esportiva” e “Ruas de lazer”: qual ação orçamentária, qual meta, qual custo unitário?

  3. Se a promessa é “Formiga relevância regional”, por que a rubrica de obras estruturantes está em R$ 100 mil?

  4. Bolsa Atleta: R$ 15 mil vai atender quantos atletas, com qual critério e qual valor mensal?


Conclusão


O plano de esporte de Laércio e Taciana é amplo, moderno no vocabulário e sedutor na apresentação. No papel, contempla inclusão, diversidade de modalidades, calendário anual, iniciação esportiva por bairros e até a possibilidade de Bolsa Atleta.


No entanto, a LOA 2026 indica um desenho predominantemente voltado à manutenção de estruturas existentes, à administração interna da secretaria e a repasses pontuais — muitos deles vinculados a emendas —, com recursos limitados para expansão estrutural ou implementação de programas permanentes de maior escala.


Passado o primeiro ano de governo, o orçamento não revela uma inflexão estratégica capaz de transformar o esporte municipal em política pública estruturada, com metas quantitativas, cobertura territorial planejada, equipe técnica ampliada e financiamento robusto.


Se a intenção é que o esporte deixe de ser apenas uma promessa programática e se consolide como eixo de desenvolvimento social e formação cidadã, 2026 precisaria apresentar outra configuração: maior investimento programático, ampliação real de núcleos esportivos nos bairros, institucionalização do Bolsa Atleta com escala significativa e metas claras de atendimento.


Em política pública, discurso não substitui estrutura e planejamento estratégico exige mais do que boa apresentação: exige prioridade orçamentária consistente.

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