Desenvolvimento econômico em Formiga: inovação no discurso, orçamento no limite
- Gabriela Laudares

- 22 de jan.
- 4 min de leitura
A seção de “Desenvolvimento Econômico” do plano do prefeito eleito Coronel Laércio e da vice Taciana é, em essência, um cardápio amplo de intenções — e isso tem duas leituras possíveis. A primeira é positiva: o texto reconhece que crescimento local não nasce só de “obra” ou só de “evento”, mas de um arranjo com ambiente de negócios, qualificação, infraestrutura e promoção do território.
A segunda leitura é o problema central: do jeito que está, o pacote mistura diagnóstico, estratégia, instrumentos e execução como se tudo tivesse o mesmo peso, sem recortes, metas, prazos, responsáveis e (principalmente) sem lastro orçamentário compatível para 2026.
O que as propostas prometem (e o que elas não dizem)
A lista começa com enunciados corretos, porém genéricos: “planejamento integrado”, “monitoramento contínuo”, “identificar setores potenciais”, “avaliar recursos naturais, infraestrutura, proximidade de mercados”, “verificar qualificação da população”. Esses itens (1 a 5) descrevem etapas de um diagnóstico e de um plano — não políticas públicas.
Para virar política pública, seria necessário explicitar pelo menos:
Qual é o problema econômico prioritário de Formiga? (baixa atração de investimentos, informalidade, estagnação industrial, gargalos logísticos, desemprego juvenil, baixa produtividade rural etc.);
Qual é a estratégia-mãe? (atração de investimentos? fortalecimento de micro e pequenas? economia do turismo? agroindústria? inovação?);
Quais indicadores e metas anuais? (abertura de empresas, tempo médio de licenciamento, empregos formais, ISS incremental, ocupação hoteleira, fluxo turístico, faturamento de MPEs, produtividade agro etc.);
Qual governança? (comitê intersetorial, conselho, agenda com FIEMG/ACIF/SEBRAE/IFMG/UNIFOR, calendário de prestação de contas).
Sem isso, o plano se torna difícil de cobrar e fácil de “cumprir” apenas com ações dispersas.
A parte “executiva”: agro, turismo, inovação, PPPs, distritos — tudo junto. Do item 6 ao 11, há um eixo agro + turismo/eventos; do 12 ao 45, um eixo infraestrutura/PPPs/desburocratização e “cidade para investimentos”.
O problema é que esses blocos têm naturezas orçamentárias muito diferentes:
Agroindústria, logística, distritos industriais, internet rural, parques tecnológicos exigem capital (obra/equipamento), projetos executivos, licenciamento, contrapartidas e, muitas vezes, cofinanciamento estadual/federal ou modelagens complexas.
Turismo e eventos podem começar menor (roteiros, sinalização, marketing, calendário), mas precisam de governança e produto turístico consistente — e, em geral, orçamento de promoção e infraestrutura de apoio.
Desburocratização pode ser “alto impacto e baixo custo” se houver integração com Redesim, revisão de normas, alvarás, classificação de risco, melhoria de processos.
Ou seja: colocar tudo no mesmo saco, sem priorização, é receita para o mandato virar um conjunto de “anúncios” sem transformação mensurável.
Cruzamento com LOA 2026: o “tamanho” do plano versus o “tamanho” do caixa
O orçamento de 2026, apresentado na audiência pública da Câmara, mostra que a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Rural tem dotação total de R$ 1.354.041,01. Além disso, aparecem dois fundos diretamente ligados ao tema:
Fundo Municipal de Desenvolvimento Econômico: R$ 85.000,00.
Fundo de Apoio à Inovação Tecnológica ao Empreendedorismo: R$ 65.728,41.
No turismo, o orçamento explicita o Fundo Municipal do Turismo em R$ 274.277,21 (e Cultura/Turismo/Esportes com R$ 4.599.723,06).
O dado-chave é simples: com esse patamar de recursos, 2026 (ouso dizer o mandato) não comporta “distritos industriais novos”, “centros logísticos”, “parques tecnológicos” e “expansão de internet de alta velocidade” como entrega material, a menos que isso venha acompanhado de: (a) captação robusta externa; (b) convênios; (c) emendas; (d) PPPs que realmente saiam do papel; ou (e) remanejamentos e créditos adicionais ao longo do ano.
Aqui cabe uma observação: propostas como PPPs (12 e 25–37) costumam ser usadas como linguagem de modernidade, mas PPP não é atalho — é um processo de modelagem, matriz de risco, estudos de viabilidade, audiência pública, licitação e regulação. Sem equipe técnica e sem “pipeline” de projetos maduros, PPP vira apenas um slogan.
Cruzamento com o PPA 2026–2029: o planejamento formal existe, mas o foco aparente é manutenção
O PPA 2026–2029 (Lei nº 6.507/2025) inclui o Programa 0016 – Desenvolvimento Econômico Empresarial e descreve ações vinculadas ao fomento, sobretudo em formato de manutenção e aquisição de equipamentos — por exemplo, ações como “Manutenção do Desenvolvimento Econômico” e itens de aquisição para fomento via FMDE.
Isso sugere um desenho mais “pé no chão” do ponto de vista administrativo (custear estrutura, manter ações, comprar equipamentos), mas também reforça a distância entre o plano político maximalista (distritos, centros logísticos, parque tecnológico, internet ampla) e o que está mais claramente estruturado como ação orçamentária típica.
Em termos práticos: se a gestão quiser mesmo perseguir as promessas grandes, precisará transformar isso em projetos prioritários do PPA (com ações finalísticas e metas) e “empilhar” fontes: Estado, União, bancos de fomento, investidores, convênios e emendas.
Onde o texto do plano acerta (e onde ele se expõe)
Acertos
Reconhece múltiplas alavancas (agro, turismo, inovação, ambiente de negócios).
Usa instrumentos contemporâneos (PPPs, incubadoras, marketing territorial, qualificação alinhada ao mercado).
Fragilidades
Falta de priorização e sequenciamento (o que vem primeiro no mandato?).
Falta de metas e indicadores (sem isso, não há avaliação real).
Muitas promessas dependem de capex e engenharia institucional incompatíveis com a dotação direta visível para 2026.
Uma cobrança objetiva para 2026: o que seria “entrega crível” neste ano
Se o governo quiser reduzir a distância entre discurso e execução, um roteiro realista (e cobrável) seria:
Ambiente de negócios: meta pública de reduzir prazos e etapas (com implantação/integração de processos e normas — alinhável ao Minas Livre para Crescer).
Carteira de projetos: selecionar 3 a 5 projetos “bancáveis” (distrito, logística, internet rural, parque/CTI), com estudos, cronograma e fonte-alvo (convênio/financiamento/PPP).
Empreendedorismo e inovação: ampliar programas tipo pré-incubação/CTI já em curso e transformar isso em política continuada com metas anuais.
Turismo como produto: roteiros, sinalização, calendário e marketing com metas de fluxo e eventos, casando com o Fundo de Turismo já previsto.
Agro e agroindústria: começar por assistência técnica, organização produtiva (cooperativas) e projetos de agroindústria “por chamada/edital”, antes de prometer plantas industriais sem viabilidade demonstrada.



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