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Perfil: Joice Alvarenga

  • Foto do escritor: Gabriela Laudares
    Gabriela Laudares
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Eleita em 2024 com 2.077 votos pelo Partido dos Trabalhadores (PT).


A trajetória política de Joice Alvarenga Borges Carvalho se apoia no ex-prefeito Aluísio Veloso, assim, visando a transferência de votos e a continuidade de governo, foi candidata à Prefeita de Formiga pelo PT, obtendo o quarto lugar nas eleições de 2012, com 21,38% dos votos. Um resultado expressivo para quem nunca tinha exercido qualquer cargo eletivo. Atualmente está em seu terceiro mandato como vereadora.


Estreou no legislativo em 2016, com 1.009 votos, já em 2020, obteve 1.522 votos e, em 2024, atingiu sua maior votação, 2.077 votos, sendo a Vereadora mais votada daquele pleito. Destaca-se que todo seu caminho político foi e continua sendo no PT.


Ao completar seu primeiro ano de seu terceiro mandato em 2025, a vereadora Joice consolida um perfil parlamentar que foge à lógica da discrição institucional e aposta claramente na exposição política, na fiscalização intensa e no tensionamento público do Executivo. Trata-se de um mandato que escolheu o conflito político como método e a visibilidade como estratégia.


Com formação acadêmica na área jurídica, Joice ingressa na Câmara com um discurso ancorado na legalidade, na transparência e no controle administrativo. Esse repertório técnico não aparece apenas como retórica: ele estrutura a forma como a vereadora atua, especialmente no uso sistemático de instrumentos regimentais para pressionar a Prefeitura e dar publicidade às fragilidades da gestão municipal.


Um mandato de volume — e de ruído político


Os números do primeiro ano impressionam. Segundo dados do SAPL, Joice apresentou mais de 380 proposições legislativas em 2025, um volume que a coloca entre as parlamentares mais ativas da legislatura. O destaque, no entanto, não está na natureza transformadora dessas matérias, mas no caráter reiterado de cobrança e vigilância:

  • 71 pedidos de informação, muitos deles direcionados a contratos, execução orçamentária e políticas públicas sensíveis;

  • 34 requerimentos voltados à obtenção de dados e esclarecimentos do Executivo;

  • 150 indicações, em sua maioria de caráter pontual;

  • 88 moções, com forte apelo simbólico;

  • 21 projetos de lei, além de 12 emendas, especialmente no debate orçamentário.


O desenho do mandato é claro: Joice opera como uma parlamentar de fiscalização permanente, que transforma o plenário, a imprensa e os instrumentos formais da Câmara em arenas de disputa política. Essa postura, embora legítima e institucionalmente relevante, levanta uma questão central: há projeto político para além da fiscalização?


Fiscalização como identidade — e como limite


Ao longo de 2025, Joice se afirma como uma das vozes mais críticas ao Executivo. Seus pedidos de informação e manifestações públicas revelam uma estratégia de desgaste político da gestão, com foco na exposição de falhas administrativas, atrasos, lacunas orçamentárias e contradições discursivas do governo municipal.


Essa atuação lhe rende espaço constante na imprensa local e reforça sua imagem de vereadora combativa. No entanto, também evidencia uma escolha política: o mandato prioriza a reação e o confronto, mais do que a formulação de políticas públicas estruturantes.


Mesmo seus projetos de lei e emendas orçamentárias, embora tecnicamente corretos, ainda não configuram uma agenda própria robusta capaz de reorganizar prioridades municipais ou disputar hegemonia no debate público para além da crítica.


Alguns projetos tocam temas relevantes, mas não fecham o ciclo da política pública:

  • Incentivo ao uso da bicicleta (sem plano cicloviário, orçamento ou metas)

  • Proteção ambiental pontual (ex: abelhas nativas, sem política ambiental integrada)

  • Combate a práticas discriminatórias sem sistema municipal estruturado


São portas de entrada, não políticas completas. Joice ainda apresentou alguns projetos com linguagem de política pública, como:


“Política Municipal de…” (ex: suicídio, emprego, antirracismo, orçamento mulher)


Por que, ainda assim, não se consolidam como estruturantes? Porque, em geral, esses projetos:

  • Não criam órgão gestor;

  • Não definem fonte de financiamento;

  • Não estabelecem metas mensuráveis;

  • Não alteram o PPA ou a LOA de forma vinculante;

  • Não criam sistema, fundo ou plano decenal.


Ou seja, são políticas nominativas, não políticas estruturadas. Considerando a densidade normativa da Casa, são projetos importantes, porém sem eficácia prática definida.


Orçamento: domínio técnico, impacto político restrito


No debate da LOA de 2026, Joice demonstra conhecimento técnico ao apresentar emendas e participar ativamente da discussão orçamentária. Trata-se de um diferencial importante, sobretudo em um Legislativo municipal historicamente marcado por baixa qualificação nesse tema.


Ainda assim, o impacto real de sua atuação orçamentária é limitado pela correlação de forças políticas. Sem ocupar espaços estratégicos na Mesa Diretora ou liderar um bloco coeso (o Bloco de Minoria, do qual ela faz parte, foi lançado recentemente, por isso ainda não é possível mensurar seu alcance efetivo), suas propostas esbarram na centralidade do Executivo e na maioria governista, o que reduz a capacidade de conversão técnica em resultado político concreto.


Grau de inovação legislativa: pautas contemporâneas, desenho institucional tradicional


Embora dialogue com temas atuais e socialmente sensíveis, o primeiro ano de mandato de Joice Alvarenga apresenta baixo grau de inovação legislativa do ponto de vista institucional. Suas proposições incorporam uma agenda contemporânea — como saúde mental, equidade de gênero, antirracismo e reconhecimento de grupos específicos —, mas o formato jurídico adotado permanece, em grande parte, tradicional e pouco indutor de mudanças estruturais na gestão pública municipal.


As leis aprovadas tendem a operar no campo declaratório, simbólico ou autorizativo, sem a criação de sistemas, planos, fundos ou estruturas administrativas permanentes. Em termos práticos, isso significa que, embora o município passe a reconhecer formalmente determinados temas, os fluxos institucionais permanecem inalterados, sem garantia de execução continuada, financiamento definido ou metas mensuráveis.


Há, em alguns projetos, tentativas de inovação conceitual, com o uso da linguagem de “política municipal” e a defesa de ações intersetoriais. No entanto, essas iniciativas não se consolidam como políticas públicas estruturantes, uma vez que não vinculam o Executivo à implementação nem produzem reorganização administrativa ou orçamentária efetiva.


O resultado é um mandato que inova mais no discurso e na escolha das pautas do que na arquitetura legislativa. Trata-se de uma atuação alinhada a debates atuais, mas que ainda não rompe com os modelos clássicos de legislação municipal, limitando o potencial de legado institucional e de impacto duradouro das proposições apresentadas.


Comunicação direta e exposição constante


Se no campo legislativo Joice aposta na fiscalização, no campo simbólico ela aposta na visibilidade. Sua presença recorrente na imprensa local não é acidental: faz parte de uma estratégia de comunicação que busca dialogar diretamente com a opinião pública, muitas vezes contornando os ritos internos da Câmara.


Esse estilo fortalece sua identidade política, mas também tensiona a institucionalidade. Ao transformar a fiscalização em espetáculo político contínuo, a vereadora corre o risco de confundir controle público com performance permanente, esvaziando o debate sobre soluções e aprofundamentos programáticos.


Outro ponto é a dificuldade de traduzir em linguagem clara e formatos simples seu trabalho, que é eminentemente técnico. A tentativa pedagógica de educar o eleitor é reconhecida, contudo seu alcance é limitado ao seu núcleo duro na maioria das vezes.


Um mandato em disputa consigo mesmo


O primeiro ano de Joice Alvarenga revela uma parlamentar ativa, preparada e politicamente aguerrida, mas ainda em disputa com os próprios limites de sua estratégia. Seu mandato cumpre com vigor o papel fiscalizador, mas permanece em aberto quanto à construção de um legado político mais amplo.


O desafio para os próximos anos é inequívoco: ou Joice transforma o capital político da fiscalização em projeto, ou permanecerá restrita ao papel de vereadora-denúncia — visível, barulhenta, mas com impacto estrutural limitado.


Em um cenário político local cada vez mais carente de agendas consistentes, a transição da crítica para a formulação será o verdadeiro teste de maturidade de seu mandato.

 

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